a falta de textos reflete a falta de tempo e a sobra de trampo felizmente.... Já que estou falando nisso a inauguração do projeto que estou trabalhando no momento o Galleria Cultural em Campinas (www.galleriacultural.com.br) é dia 23/10 a noite e a premiere da mostra de cinema europeu traz o último do Costa-Gravas:
O Corte, (le couperet, Bel./Esp., 2005). De Costa-Gavras. Com José Garcia, Karin Viard, Geordy Monfils. Um profissional realizado, e pai de família feliz, perde o emprego que tinha há 12 anos numa fábrica de papel. Depois de passar longos meses sem arrumar novo trabalho, ele começa a desenvolver um comportamento estranho a cada dia que se passa até investir em ações criminosas contra seus concorrentes. 12 anos / 122 min. / Pandora / Inédito / Dolby SR
Escrito por cidrera às 03h40
[]
[envie esta mensagem]

Ciclo: Entendendo o Cinema Brasileiro através do Brasil (curadoria de Fernão Ramos)
Espaço Cultural CPFL Campinas
www.cpflcultura.com.br
(entrada franca)
Programação
04/10 (19hs)
Palestra: O nacional e o cinema face ao capitalismo globalizado c/ Luiz Zanin Oricchio
08/10 (17hs)
Filme: Cidade de Deus
15/10 (17hs)
Filme: Através da Janela
18/10 (19hs)
Palestra: O Brasil visto do lado de lá: Um céu de estrelas, Através da Janela e Antonia c/ Tata Amaral
22/10 (17hs)
Filme: Cronicamente Inviável
25/10 (19hs)
Ficção documentária: via de mão dupla a propósito do cinema de Sergio Bianchi c/ João Luiz Vieira
29/10 (17hs)
Filme: Quanto vale ou é por quilo?
01/11 (19hs)
Palestra: O Brasil escatológico de meus filmes c/ Sergio Bianchi
05/11 (17hs)
Filme: Cinema, Aspirinas e Urubus
08/11 (19hs)
Palestra: Refugiados, exilados, migrantes, fronteiras e mundos imaginados no Cinema Brasileiro c/ Andréa França Martins
12/11 (17hs)
Filme: Terra Estrangeira
22/11 (19hs)
Palestra: Má consciência e Narcisismos às avessas: a representação do popular no Cinema Brasileiro c/ Fernão Ramos
26/11 (17hs)
Filme: Falcão, meninos do tráfico
29/11 (19hs)
Palestra: Favelas virtuais e a cosmética das imagens parabólicas c/ Ivana Bentes
03/12 (17hs)
Filme: O maior amor do mundo
Escrito por cidrera às 05h12
[]
[envie esta mensagem]

Mostra AIDS Campinas
Museu da Imagem e do Som – MIS Campinas
(entrada franca)
04/10 (15hs) As Horas
(19hs) Dias
05/10 (15hs) Filadélfia
(19hs) Prazo Final
06/10 (15hs) Tudo sobre minha mãe
09/10 (15hs) Wa N´MNA
(19hs) Transpotting
10/10 (19hs) Antes do anoitecer
11/11 (15hs) House of Love
Escrito por cidrera às 05h12
[]
[envie esta mensagem]

Cafundó (Direção Paulo Betti e Clóvis Bueno) 2006
Tive a oportunidade de assistir hoje a pré-estréia de Cafundó, ainda sem data para entrar no circuito. Ofilme que demorou 3 anos para ser finalizado, reconstrói através do imaginário brasileiro a passagem do século 19 para o 20 na região de Sorocaba, através dos sentimentos e sentidos de João Camargo o Nhô João (interpretado por Lázaro Ramos), uma figura real e imaginária que através de suas visões e audições ergueu um verdadeiro templo do sincretismo religioso do Brasil no antigo bairro da Água Vermelha. Diante da grande tela finalmente depois de uns bons anos assisti a uma experiência estética que certamente é mais um salto do cinema brasileiro calcado no melhor da nossa tradição cinematográfica experimental. Interpretações, fotografia, uma direçaõ de arte e figurino impecáveis e uma câmera como a muito não se via por aqui, excluindo obviamente o pessoal da antiga que está em atividade como o Bressane e o Reichenbach por exemplo. O elenco principal ainda traz ainda Leona Cavalli e Leandro Firmino da Hora. O lance é esperar a estréia desse primeiro e certeiro tiro do Paulo atrás das câmeras.
(Pré-estréia, exibição única no Cine Jaraguá 2 em Campinas)
Escrito por cidrera às 03h19
[]
[envie esta mensagem]

Dicas de leitura

Último número da revista Teorema de crítica cinematográfica, editada em Porto Alegre (Nº9, julho/2006 - R$8,00)
Nesse número a revista traz um ensaio bem legal sobre o Match Point do Woody Allen, focando principalmente a relação entre a construção dos personagens, personas e o trabalho da direção, uma resenha já manjada sobre o na minha opinião fraco O segredo de Brokeback Mountain do Ang Lee. Tem ainda um texto que busca traçar um paralelo um pouco forçado entre Munique do Spielberg e Paradise Now de Hant Abu-Assad, seguido por texto legal e importante sobre Caché o último filme do Haneke um figura pouco lembrada aqui nos trópicos, uma resenha sobre o lançamento em DVD do Assassino da furadeira do Abel Ferrara um clássico. Rola ainda uma entrevista interessante com o Beto Brant seguida por uma resenha do seu último filme Crime Delicado, depois uma crítica já manjada do já tão falado Árido Movie do Lírio Ferreira e aí chegamos a um ponto polêmico da revista: a crítica sobre o último filme do Nelson Pereira, Brasília 18%, essa crítica é a mais rasa e maldosa que eu li sobre o filme que é maravilhoso na minha opinião. Segue ainda um ensaio provinciano, não no sentido ofensivo, sobre Cerro do Jarau de Beto Souza, uma homenagem a Luiz César Cozzatti e um texto sobre as relações entre cinema e fotografia.
Depois da digestão eu entro em detalhes sobre textos específicos da revista, que no todo e enquanto iniciativa já consolidada ao que me perece, é importante, essencial e bem legal.

“Introdução ao documentário brasileiro” do Labaki (diretor do festival de documentários É tudo verdade), ocupa um espaço importante nas várias lacunas que temos ainda na literatura sobre cinema brasileiro no Brasil. Embora seja um livro sucinto (125 páginas) podemos compará-lo em importância ao “História do cinema brasileiro” organizado pelo Fernão Ramos da década de 1980, que se tornou um manual indispensável em qualquer pesquisa sobre o assunto. Temos no livro além de 110 anos de produção documentária no país, uma videografia com 50 filmes comentados disponíveis no mercado em VHS e/ou DVD para quem quiser se iniciar no caminho. Mais uma importante contribuição do Labaki.
(Introdução ao documentário brasileiro, Amir Labaki, Editora Francis, 2006, preço por aí: entre 15 e 20 Reais)
Escrito por cidrera às 04h01
[]
[envie esta mensagem]

dica sonora

Um volume maravilhoso dessa coleção já clássica no mundo dos vinis (1962)
O acompanhamento é a gosto do cliente.
Escrito por cidrera às 03h19
[]
[envie esta mensagem]

Estrela Solitária (Don´t Come Knocking) - EUA/Alemanha/França - Direção Win Wenders - 2005
Em seu mais recente filme, outro road-movie, Win Wenders ironiza não só a produção cinematográfica como o enterteiment em geral e em específico o Western, não chegando a construir uma metalinguagem, mas tocando em pontos sabidos, glamourizados na maioria das vezes e já abordados em Million Dollar Hotel e Far way, So Close. Com excelentes atuações de Sam Shepard, Jessica Lange, Tim Roth, Eva Marie Saint e Fairuza Balk, Wenders mais uma vez nos apresenta uma bela trilha sonora e uma fotografia que remete aos grandes clássicos europeus, como sempre. A estória gira em torno das prováveis e inconscientes buscas de um astro de Westers decadente que é obrigado a encarar a descoberta familiar. Sua mãe e uma transa antiga, esquecidas e um filho e uma filha, deconhecidos até então. Com cenas brilhantes como a do cassino com Shepard, Wenders mesmo assim faz um trabalho acho que morno, não sei se foi só a expectativa mas aqueles outros filmes dele que você está pensando agora são....Rever....
(em cartaz por aí ainda)
Escrito por cidrera às 02h01
[]
[envie esta mensagem]

<esmolando referências...>
http://www.mastersofcinema.org/
http://www.earlycinema.com/
http://www.ubu.com/film/index.html
http://www.andreitarkovski.org/
Escrito por cidrera às 02h34
[]
[envie esta mensagem]

Revendo “Tudo é Brasil” (1997) do Sganzerla
Tudo é Brasil é um filme complicado, difícil, mas vamos lá. Um filme sobre um filme que não foi terminado (It´s All True do Welles de 1942) é o fio condutor dessa colagem simbólica operada por Sganzerla e seu fiel escudeiro na montagem o Renoldi. Através de uma complexa junção e sobreposição de fotografias, áudios, trechos de filmes, músicas e algumas imagens captadas, Sganzerla costura as imagens mitológicas do nosso país, tudo aquilo que nós assimilamos de forma séria ou banal, consciente ou inconscientemente, consumimos e vendemos: samba, Rio, Sol, mulher, banana, carro, etc, etc... Mas Tudo é Brasil não cristaliza somente, não mitifica o mito fazendo o jogo rasteiro do establishment ele quebra a taça de cristal varre alguns cacos para baixo do tapete e cola o que sobrou para que nós a quebremos novamente. Sganzerla nos fornece um material precioso para costurarmos uma colcha de retalhos que cubra todos os planos (emocional, político, sentimental, cultural etc...) não mais de forma dissociada dando prosseguimento ao seu trabalho e alguns outros de sua geração e de uns gatos perdidos de hoje que ficaram fora do saco. A questão é fora por opção ou por condição? Quem viver verá? Não!
(Filme disponível em VHS distribuição RioFilmes)
Escrito por cidrera às 02h27
[]
[envie esta mensagem]

VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA

Ambos vinis originais de 1969.O primeiro contém faixas da ópera Aniara além das músicas do filme, coisa de maluco.
Escrito por cidrera às 01h20
[]
[envie esta mensagem]

Ilusões de Órbita (Orbis Pictus, Direção de Martin Sulik, rodado na Eslováquia e na República Tcheca em 1997)
Ta aí um daqueles filmes que a gente tromba sem querer, sem esperar muito e com um minuto de projeção já estamos arrebatados e instigados. A jovem Tereza nos dá a oportunidade de trilharmos em uma aparentemente pequena e simplória jornada os caminhos que constituem a essência da vida social e afetiva mas de uma maneira extremamente impactante. A qual não distinguimos mais o que é real ou irreal pois isso não está em questão mais, simplesmente é. Um pequeno e ocasional desenho expropriado por Tereza a identifica com o mundo, o lugar das coisas no mundo não simplesmente o seu mundo imaginário como uma análise superficial pode nos levar mas o mundo todo mesmo. Todos no filme conhecem aquele mapa, sabem onde estão mas parecem presos a uma condição, ao contrário de Tereza que transita pelo mundo sem pré-determinações e condicionamentos como os demais personagens da trama. Trilha maravilhosa. Atuações teatrais, mitológicas, literárias, cotidianas, simples... Tereza e Sulik nos levam para uma viagem pela nossa moral, pelos nossos costumes constituintes não colocando em momento algum juízo de valor, mas trazendo sempre diante um espelho, quem reflete e quem é reflexo, quem segue quem estanca, ou o que reflete e o que estanca. Quem dá atenção para essas coisas?
(disponível em VHS pela Cult Filmes)
Escrito por cidrera às 01h05
[]
[envie esta mensagem]

Nossa Música (Jean-Luc Godard, 2004)
O filme é montado em três partes: inferno, purgatório e paraíso nessa ordem assim como em Dante. O inferno é uma exposição e a recuperação de imagens da guerra em arquivos documentais e ficcionais onde Godard experimenta a velocidade o som e a montagem em 8 minutos. Para quem assiste TV mesmo que nem sempre, as imagens em si não chocam mais, mas a mão invisível do Godard editando esse breve trecho certamente ainda causa o deleite dos cinéfilos. O purgatório escolhido pelo francês é a Sarajevo do pós-guerra. O estilo dos diálogos e opiniões ora explícitas ora implícitas já são conhecidos do seu público com a diferença de que o próprio diretor as emite em vários momentos já que ele é uma das personas da película. Belos planos e uma edição impecável e em alguns raros momentos mesmo após mais de quarenta anos Godard ainda nos brinda com aquele instante perfeito e surpreendente que sempre está lá no momento exato no lugar certo em todos os seus trabalhos. O trabalho da jovem atriz Sarah Adler: impecável. O purgatório é uma mata? Uma ilha? literalmente cercada por mariners. Em alguns momentos beira uma comunidade hippie soando piegas. Se apreendermos o filme nessa seqüência linear ele certamente não é um grande filme do Godard: enredo e contextos acertados porém “mornos”, comportados demais já que estamos falando de Godard e a discussão não pode ser nivelada por baixo; evolução e resolução previsíveis dos personagens. A linearidade soa estranha em um trabalho de Godard. Penso eu que essa óbvia evolução linear no filme do tipo 1+2=3, ao seu final instiga pois refletindo um pouco sobre as questões existenciais e históricas levantadas levei-me a imaginar que esses três momentos aparentemente distintos e seqüencialmente encadeados no filme refletiam apenas uma visão de mundo das inúmeras conhecidas e desconhecidas, a questão é cultural. Inferno não significa a mesma coisa em qualquer parte do globo, isso pode soar óbvio para uns, mas para outros não. Poderíamos estabelecer uma outra visão, outra ordem, exemplo: o inferno pode ser Sarajevo ou inúmeras outras cidades, o purgatório a ilha hippie, e o paraíso o enfrentamento bélico, vide as novas cruzadas do novo milênio. Assim como outras configurações com as três partes tornam-se possíveis a partir do momento em que trocamos os pontos de vista do que homogeneamente denominamos guerra para ficarmos somente com o fio condutor escolhido por Godard. Certamente Nossa Música não causa o impacto de um... é todos aqueles outros filmes do Godard que você acabou de pensar, mas tem força se o contextualizarmos coisa que também pode ser óbvia para uns mas para outros não. Não, não é somente mais um filme do Godard. (filme lançado em DVD no Brasil em 2005)
Escrito por cidrera às 01h34
[]
[envie esta mensagem]

Notas sobre “O Pátio” de Glauber Rocha, 1959.
Aparências: Em um filme tecnicamente mudo, sensorialmente escutamos vozes no tabuleiro preto e branco no topo de uma encosta onde avistamos entre as bananeiras que cercam o mesmo, o nosso litoral. Enquanto isso escutamos também a música instrumental que se aproxima em muitos momentos do Free Jazz, um homem e uma mulher constroem corporalmente algumas situações e condições cotidianas.
Glauber ao mesmo tempo em que considerou sua primeira experiência cinematográfica como diretor, “concretista” ou “esteticista”, onde o que o conduziu foi principalmente a pesquisa estética, ressaltou o mesmo como um importante laboratório para suas idéias, essencialmente eisensteinianas (ver nota abaixo)) na época pelo menos no que se refere ao direcionamento dos esforços para a montagem e nunca descartou a importância de seu primeiro filme.
Essências: Muitos elementos que foram abordados mais tarde, pelo próprio Glauber e por outros, e que constituíram marcos referencias nos debates políticos e culturais do período já estão em O Pátio. Os olhos voltados para o litoral, a vida representada como um jogo cansativo — o homem e a mulher passam o tempo todo tentando se tocar, deitados, sem camisa, descalços, olhando... para o mar!?. A possibilidade de sair do jogo surge, em um primeiro momento com o homem andando até uma das árvores que o cerca para urinar na mesma e voltar, e no final do filme com os dois subindo uma escada. Subindo para onde já que aparentemente estão no topo? Os caminhos foram apontados posteriormente pela sua própria cinematografia.
Escrito por cidrera às 02h43
[]
[envie esta mensagem]

“O Sacrifício” (Offret – Suécia, 1986)
Direção: Andrei Tarkovski
O acerto final de contas de Tarkovski com ele mesmo e com todas as instâncias materiais e metafísicas que sempre permearam seu trabalho de maneira explícita porém sutil, “O Sacrifício” é uma obra maravilhosa sob todos os pontos de vista que podemos tocar em um filme.
O ator Erland Josephson protagoniza como Alexander planos de uma plasticidade já bem sucedida em outros filmes de Tarkovski como “Stalker” por exemplo, só que com uma profundidade talvez mais tocante devido a temática eleita como fio condutora ser mais latente ao grande público, principalmente em um momento onde a ameaça nuclear foi algo palpável e marcante em duas, talvez três gerações. Pensando bem sempre é tempo de recomeçar, vide as...
A câmera e a fotografia desse trabalho certamente eternizarão fotogramas na minha cabeça. Todos os sentimentos e sensações constituintes e desagregadores da vida moderna em família são colocados na mesa de forma brutal, desafiadora e possivelmente resignada. Como no plano em que Alexander descobre na lama do seu quintal uma miniatura de sua própria casa feita por seu filho para lhe oferecer como presente de aniversário. A personagem Maria representando o imortal misticismo humano que muitas vezes ao longo da história foi alvo de poderes políticos, aliás temática essa presente praticamente em todos os filmes de Tarkovski, óbvias marcas do exílio forçado mas certamente não só, constitui por si mesma outra pincelada do seu gênio.
E como não poderia deixar por menos a música de Bach (A paixão segundo São Mateus) impregna o ambiente no começo e no final, já que ao longo, Tarkovski nos reserva vários outros sons, como o silêncio e/ou o grito da perplexidade, o das matizes do distanciamento involuntário, o das escolhas desesperadas que fazemos...
Certamente a impressionante obra de Tarkovxki tem começo e fim, mas as suas mediações são como diria um camarada meu “uma enxadada na nuca”.
Escrito por cidrera às 00h32
[]
[envie esta mensagem]

Notas sobre o Cinema Novo (3)
“Os Cafajestes” de Ruy Guerra
Em 1961, Ruy Guerra o moçambicano que havia cursado cinema na França, realiza na Rio de Janeiro um dos mais incisivos trabalhos de direção feito até então no cinema brasileiro: Os Cafajestes. A forte influência da Nouvelle Vague está presente nesse filme que atingiu o público de forma surpreendente para a época, lotando as salas de exibição. O filme depois de ser repicado pela censura foi liberado para os maiores de 21 anos. Isso devido aos longos planos onde figuram a mais sórdida imagem da Zona Sul carioca: o seu cotidiano.
Com um trabalho inquestionável de direção e fotografia esse filme nos revela um ângulo da cidade do Rio de Janeiro ignorado até então não só pelo cinema. O espectador tem diante de si dois sujeitos que transitam em um conversível pelas orlas cariocas, satisfazendo suas necessidades sexuais, agindo de maneira despudorada, fumando “provavelmente” maconha em meio às notícias anunciadas ainda pelo rádio e sempre vislumbrando algum trocado para... Para o quê?
Os personagens são construídos de forma relacional ao longo da narrativa que corre o risco de tornar-se inconsistente sem qualquer um deles.
Vavá (Daniel Filho) é da zona sul carioca tem para onde voltar e para quem recorrer, o outro, Jandir (Jece Valadão) é de lugar nenhum. O mesmo esquema repete-se com as duas mulheres que são jogadas na narrativa. A diferença é que Vilma (Lucy Carvalho) a da zona sul, prima do correlato, não tem os arrependimentos que esse demonstra ao fim de um dia. Já Leda (Norma Bengell), ao se ver enganada passa a manipular todo o jogo o qual nenhum sai vencedor.
O passar de um dia e uma noite são experienciados distintamente pelos personagens que a todo momento, provocam a presença imaginária do movimento “real”, aquele que não é apreendido por um filme, no espectador. É exatamente esse fato, o de ser um espectador que através de uma montagem de cenas, interpreta o vir a ser e o ter sido instantaneamente, que possibilita caminhos interpretativos e sensoriais particularizados, diferenciando uma forma de expressão artística como a cinematográfica de um processo de comunicação inteligível a todos indistintamente.
O que o espectador tem diante de si em um filme como Os Cafajestes, é a sua própria condição na vida diária da modernidade: a do esvaziamento presente. Segundo Sartre: “Antes de si mesmo, atrás de si mesmo: nunca ele mesmo”.
Os Cafajestes, trazem à tona o cotidiano ufanista do país do futuro em meio a um cenário internacional conflituoso e polarizado narrado impessoalmente pelo locutor da rádio que ouvimos em vários momentos, dentro do carro utilizado para a trama.
A montagem utilizada em Os Cafajestes nos remete ao que Bergson denominou “reconhecimento atento”. Nesse campo, diferente do “reconhecimento automático” o qual a percepção opera por prolongamento sensório-motor, ou seja, com imagens em movimento o resultado é sempre um afastamento do objeto anterior, não apreendido devido à associação horizontal e automática operada. Com o “reconhecimento atento”, o realizador no caso do cinema, tem que tomar partido. A percepção não pode ser prolongada, pois determinados contornos do objeto, esses escolhidos, são realçados prendendo a nossa percepção ao objeto a ser discutido.
Os longos planos-sequência utilizados por Guerra tem por intenção apreender a atenção do espectador que passa a ser algo mais do que isso, o que segundo Bergson tornasse possível devido ao encontro da “imagem-ótica e sonora” com a “imagem-lembrança”, um processo que nos remete a possibilidade de infinitas e novas ligações perceptivas. Em suas próprias palavras, “bem se vê que o processo da atenção tem por efeito criar de novo, não somente o objeto apercebido, mas os sistemas cada vez mais vastos aos quais ele pode se ligar”.
O objeto do filme não é simplesmente o Rio de Janeiro, um carro, dois homens e duas mulheres. Ruy Guerra buscou no ambiente urbano o seu objeto de reflexão: as contradições que sustentam a modernidade brasileira. Construindo um marco referencial para as discussões tanto cinematográficas quanto existenciais do país, amarrando essas duas esferas que ainda estavam soltas — assim como Glauber em Barravento e Deus e o Diabo na Terra do Sol e Nelson Pereira em Vidas Secas fizeram com o cenário sertanejo no mesmo período.
Escrito por cidrera às 00h31
[]
[envie esta mensagem]

|